Publicado por: blogdamariazinha | 09/09/2011

O Brasil e a crise I e II – Artigos de Luiz Paulo Vellozo Lucas

Segundo a análise de Luiz Paulo a solução para a crise econômica mundial passa pela economia, claro, mas também oela política. Confiram abaixo.

O Brasil e a crise I

A crise atual é a mesma de 2008. A injeção de liquidez feita pelos Bancos Centrais dos Estados Unidos e da Europa salvou as bolsas e os bancos, mas não foi capaz de relançar a economia num novo ciclo de crescimento. O dinheiro ficou “empoçado” e a economia estagnada. O bonde dos keynesianos, puxado por Paul Krugman e Joe Stiglitz, vocifera contra a ortodoxia burra daqueles que acham que o déficit público americano é um problema maior que a recessão e o desemprego.

Austeridade fiscal agora é um veneno, dizem eles, e os protestos violentos na Europa mostram que ninguém quer remédio amargo se a cura parece incerta. Nesse momento, faz-se necessário medicamentos que não matem o paciente (exigir rigoroso e ortodoxo ajuste fiscal), mas que o trate com doses homeopáticas de austeridade com medidas fiscais que sinalizem a recuperação de sua saúde no longo prazo.

Na edição do dia 18 de agosto, o Wall Street Journal (WSJ) aconselhou a Europa a se mirar no Brasil, de Fernando Henrique Cardoso, e nos Estados Unidos do século XVIII para dar um passo adiante na renegociação das dívidas de Portugal e Grécia em troca de uma aliança fiscal mais forte.

Conta o jornal americano que foi o que Alexander Hamilton fez depois da Guerra da Independência em 1790, quando a dívida pública era 42% do PIB, e a parte dos 13 Estados era metade. Hamilton, secretário do Tesouro, propôs que o governo nacional assumisse as dívidas dos Estados e começasse uma nova era de ordem fiscal e prosperidade.

A matéria do WSJ segue exaltando a luta contra a hiperinflação em meio às crises financeiras do México, da Argentina e da Ásia, realizada pelo governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, que renegociou as dívidas dos Estados e municípios em troca de mudanças nas práticas tributárias e da implantação de um ambiente de responsabilidade fiscal, estabilidade e crescimento econômico.

O problema é político nos Estados Unidos e na Europa. Nos EUA, por causa dos radicais do Tea Party que querem destruir Barack Obama nem que, para isso, seja preciso destruir junto a economia americana, e na Europa, porque não há um poder político europeu capaz de liderar uma união fiscal e uma renegociação da dívida impagável com base em novos títulos da dívida europeus.

Credibilidade das instituições e líderes com coragem e sagacidade para desenhar soluções de futuro são ingredientes indispensáveis, conclui o artigo do WSJ.

Luiz Paulo Vellozo Lucas é engenheiro da área de Meio Ambiente do BNDES e professor de economia da PUC-RJ

O Brasil e a crise II

As questões centrais da atual crise econômica são de natureza política, como mencionei no primeiro artigo. Nos EUA, os conservadores do Tea Party não enxergam que a expansão do déficit público realizada no passado não conseguiu relançar a economia americana, que se encontra estagnada, mesmo com juros zero. Na Europa, só uma nova ordem fiscal permitirá renegociação da dívida dos países insolventes, com novos “Euro Bonds” entrando no mercado.

Em ambos os casos, o espaço para um programa do tipo Keynesiano de mais expansão de moeda e mais déficit público é muito limitado, justamente pelo fenômeno conhecido como “armadilha da liquidez”, em que o dinheiro fica “empoçado” sem irrigar o investimento produtivo e a atividade econômica, por conta das expectativas pessimistas.

Por outro lado, o discurso conservador de mais cortes e mais austeridade, tomado isoladamente , só vai servir para aprofundar e alongar a recessão. Se o nó político não for desatado e as expectativas positivas sobre o futuro não forem construídas, não sairemos dessa armadilha, independentemente de mais ou menos austeridade e déficits fiscais.

No Brasil a presidente Dilma ensaia um programa fiscal de longo prazo visando a criar condições estruturais para a queda da taxa de juros, hoje em 12% ao ano, a mais alta do mundo. Extinção gradativa da indexação da dívida pública, limitação do crescimento dos gastos de custeio da União por lei, desindexação da caderneta de poupança, criação do fundo de previdência complementar para funcionários públicos, limitação do crescimento da folha de salários da União, são as principais medidas que estariam presentes num programa de ajuste fiscal que pretende ser “crível” e “exequível”, segundo fontes do governo.

As intenções são as melhores, mas o desafio também é político. O primeiro problema é a falta de credibilidade do governo Dilma para executar um programa que contraria tudo prometido na campanha. O segundo é um problema derivado do federalismo de subserviência existente em nosso país. Estados e municípios respondem por 75% dos investimentos públicos e possuem muito mais folga para se endividar que a União.

Para que a nova folga fiscal irrigue o investimento e estimule a atividade econômica é preciso liberar Estados e municípios saudáveis para contraírem operações de crédito e assumirem parcelas crescentes de responsabilidade na infraestrutura econômica do país. Significa desconcentrar poder e recursos para a economia andar melhor na crise e depois dela. Se a presidente Dilma fizer isso teremos que aplaudir.

Luiz Paulo Vellozo Lucas é engenheiro da área de Meio Ambiente do BNDES e professor de economia da PUC-RJ

* Artigos publicados na página de Opinião do jornal A Gazeta dos dias 26 de agosto e 9 de setembro, respectivamente.


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