Publicado por: blogdamariazinha | 21/03/2011

Estante Virtual da Mariazinha: Hitler – Ian Kershaw

Semana passada já havia citado em um post uma expressão alema citada nesse maravilhoso livro que ainda estou lendo. São, afina, pouco mais de 1.000 páginas. Excelente descrição e análise de Hitler, o seu governo, o seu movimento e tudo o mais. Já li alguns livros sobre Hitler e o nazismo, nenhum tão completo, tão detalhado e com excelente análise. Recomendo a todos que gostam do tema. Vem acompanhado, ainda, com várias fotos do biografado ao longo de sua vida.

Ian Kershaw fala sobre sua biografia de Adolf Hitler
(Fonte: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2010/12/04/ian-kershaw-fala-sobre-sua-biografia-de-adolf-hitler-346480.asp)
Quando resolveu aprender alemão, em 1969, o historiador inglês Ian Kershaw estava convencido de que a língua seria muito útil em seus estudos sobre o campesinato medieval germânico. Em poucos anos, porém, seu recém-adquirido conhecimento das intrincadas declinações teutônicas seria aplicado a tópicos menos remotos. Ao juntar-se nos anos 1970 ao chamado Projeto Bavária, um grupo de pesquisas sobre a vida cotidiana na Alemanha de 1933 a 1945 liderado pelo historiador alemão Martin Broszat, Kershaw deixou para trás a formação de medievalista para dedicar-se aos acontecimentos mais dramáticos do século XX: o regime nazista, a Segunda Guerra, o Holocausto. Sua reputação como um dos mais brilhantes pesquisadores do Terceiro Reich começou a ser estabelecida com seu primeiro livro sobre o tema, um estudo de 1980 sobre o culto a Hitler, e tem seu ponto alto nas 2.122 páginas de sua biografia do ditador alemão. Publicada em dois volumes em 1998 e 2000, “Hitler” ganhou em 2008 uma versão condensada de mais de mil páginas, agora publicada aqui pela Companhia das Letras em tradução de Pedro Maia Soares. Por telefone, Kershaw conversou com O GLOBO sobre a obra.
O senhor diz em seu livro que para entender Adolf Hitler é mais importante compreender seu poder do que sua personalidade. Poderia explicar essa observação?

IAN KERSHAW: Hitler teve, é claro, um impacto extraordinário, não ultrapassado por nenhuma outra figura do século XX, mas explicar isso apenas ou principalmente em termos de sua personalidade seria de certa maneira enganoso. O que temos que entender são as condições que permitiram a essa figura, de quem ninguém havia ouvido falar até 1919, conquistar tanto poder sobre um Estado tão sofisticado quanto a Alemanha. E, em seguida, ver as condições, estruturas e mentalidades que permitiram que esse poder fosse exercido nos 12 anos seguintes com um efeito tão terrível sobre a Alemanha, a Europa e o mundo.

Não é difícil pensar a ascensão e o poder de Hitler sem levar em consideração certos traços pessoais, como o talento retórico e o apelo carismático?

KERSHAW: Hitler era um orador extraordinário, mas temos que lembrar que até 1928 esse orador extraordinário tinha muito pouco impacto sobre a sociedade alemã. Nas eleições de 1928, apenas 2,6% votaram pelo partido de Hitler. Nos anos 1920 ele já era um orador poderoso, mas o que ele dizia tinha interesse para um percentual muito pequeno da população. Nas condições da Depressão, de 1930 em diante, isso mudou. A crise na sociedade alemã, que foi uma verdadeira crise de identidade nacional, fez com que a mensagem de Hitler atraísse setores muito mais amplos da população, levando-o dos arrabaldes para o centro do espectro político da época.

Quais foram os fatores fundamentais que levaram à chegada de Hitler ao poder?

KERSHAW: Em primeiro lugar, devemos lembrar que a República de Weimar, essa república liberal estabelecida em 1919, teve desde o início sua legitimidade questionada por setores da sociedade — setores cada vez maiores não apenas da população alemã, mas mais especificamente da elite do país. Eram pessoas na economia, no Exército, no mercado imobiliário, que buscavam uma oportunidade para se livrar dessa democracia que detestavam tanto. Durante os anos 1920, eles examinaram diversas possibilidades. Não tinham como primeira opção uma ditadura comandada por Hitler. Mas nos anos 1930, conforme uma crise sucedia a outra e o sistema político entrou em colapso, eles passaram a apoiar Hitler e arquitetaram sua chegada ao posto de chanceler em 1933. A elite conservadora e nacionalista da Alemanha foi o grupo mais fundamental na chegada de Hitler ao poder.

Entre as ideias de Hitler, quais tinham maior ressonância na sociedade alemã?

KERSHAW: As ideias cruciais para que ele chegasse ao poder não eram exclusivas de Hitler, mas ele as apresentava de uma forma particular. O essencial era botar a Alemanha de pé de novo, depois dessa crise existencial no país. Ele dizia: “só nós podemos tornar a Alemanha forte de novo, devolver seu orgulho como um país”. Era uma forma de nacionalismo extremo baseado no poder das Forças Armadas. Desde o início Hitler forjou uma aliança com os militares, dizendo que daria a eles tudo que eles quisessem, e com isso ele conseguiu também o apoio desse setor vital do Estado.

Então, em sua avaliação, Hitler se tornou tão poderoso porque conseguiu convencer a Alemanha de que a tornaria poderosa.

KERSHAW: Exatamente isso. As ideias mais importantes para ele, sobre os judeus e a expansão das fronteiras orientais, foram secundárias na popularidade e na ascensão do nazismo. As pessoas sabiam que ele era um antissemita fervoroso, mas esse não foi o principal motivo pelo qual o apoiaram.
Seu livro diz que o processo de formação da personalidade de Hitler é um enigma para os historiadores. Por quê?

IAN KERSHAW: Existem poucos registros da vida de Hitler antes de ele se tornar um político, aos 30 anos de idade, em 1919. Seu desenvolvimento inicial tem que ser reconstituído a partir de fontes insuficientes, com mais especulações do que fatos. Quando ele entra na política, vemos um indivíduo que em termos psicológicos já está mais ou menos formado, mas as origens dessa personalidade realmente permanecem até certo ponto um enigma.

O senhor escreve ainda que, mesmo quando usada num sentido negativo, como acontece em estudos sobre Hitler, a noção de grandeza acaba por ter um efeito laudatório. Como escapar ao tom elevado que parece quase inevitável quando se fala de alguém que teve a importância histórica de Hitler?

KERSHAW: É óbvio que Hitler foi um indivíduo muito importante, mas o termo “grandeza” tem de fato implicações apologéticas, mesmo que se fale numa grandeza negativa. Ele põe de lado as outras pessoas, parece sugerir que elas fizeram o que fizeram porque era impossível resistir a ele. Queria encontrar explicações racionais para as coisas aparentemente irracionais que as pessoas fizeram. Tentar olhar além do indivíduo, para pensar como o papel desse indivíduo foi possível, encontrar explicações sociais e políticas para o poder dessa pessoa que de muitas formas era uma mediocridade, apesar de seus talentos, certamente seu talento retórico demagógico. Em outras circunstâncias que não as da Alemanha daquele período ninguém teria ouvido falar de Hitler.

Existe algo no papel de Hitler como Fuehrer distinto de outras posições de liderança autoritária no século XX?

KERSHAW: Há semelhanças , mas nada que chegue perto. Pode-se pensar em Mussolini na Itália, em Franco na Espanha, em Stalin na Rússia. Nos três casos, o líder era crucial, mas em nenhum deles exercia o poder de forma tão personalizada quanto Hitler. Na Alemanha nazista não havia um senado, um gabinete, um conselho, nenhum tipo de corpo político que pudesse ao menos ponderar as opiniões de Hitler.

O senhor faz um exercício especulativo no livro, discutindo o que teria acontecido se Hitler por algum motivo não houvesse chegado à liderança da Alemanha. Poderia falar sobre isso?

KERSHAW: Como você diz, é apenas uma especulação, mas acho que podemos fazer três hipóteses plausíveis. Se um outro líder nacionalista que não Hitler houvesse chegado ao poder em 1933 o resultado seria a completa desintegração do Estado alemão e sua conversão num Estado policial de arbítrio? Quase certamente não. Segunda: teria havido o Holocausto? Discriminação sem dúvida, legislação contra judeus também, mas o Holocausto é quase certo que não. E, por último, teria havido uma guerra europeia geral em 1939? As tensões no continente eram óbvias, e qualquer governo alemão teria tentado se livrar do acordo de Versalhes, mas também aqui a resposta é não. Basta lembrar que no final dos anos 1930 mesmo Goering, o braço direito e sucessor designado de Hitler, queria recuar da política externa expansionista, e que o Exército tinha receios de que o país caminhasse para uma grande conflagração.

O quanto o alemão médio, se for possível fazer essa abstração, estava envolvido com a visão de mundo de Hitler?

KERSHAW: É difícil falar nesses termos a respeito de uma população de 60 milhões de pessoas. Arriscando a generalização, pode-se dizer que os sucessos da política externa nos anos 1930, como a remilitarização da região a oeste do Reno e a Anschluss com a Áustria [anexação da Áustria à Alemanha nazista], foram muito populares. As pessoas defendiam a expansão, mas não queriam uma guerra. Quando começou a campanha militar, houve muito entusiasmo com os sucessos, mas o apoio despencou assim que começaram os reveses. As políticas antissemitas, por sua vez, tiveram apoio crescente da população alemã. Havia cada vez mais apoio à ideia de expulsar os judeus da Alemanha, o que é diferente do apoio ao extermínio — não se falava disso na Alemanha da época. É claro que na prática isso levou diretamente ao extermínio de 6 milhões de pessoas. Em todas essas questões, porém, devemos lembrar que essa era uma ditadura terrorista. Temos uma sensação muito indireta e parcial do apoio e da oposição ao regime, porque as pessoas não expressavam com liberdade suas opiniões.

Embora o senhor não considere o antissemitismo o fato essencial na popularidade de Hitler, diz que ele era o centro de sua visão de mundo. É possível dizer de que maneira o antissemitismo de Hitler se formou?

KERSHAW: Sabemos muito pouco sobre o antissemitismo de Hitler antes do início de sua vida política partidária, em 1919. Ele viveu em Viena no início do século XX e quase certamente já era antissemita àquela época, mas provavelmente não num grau diferente do de outros moradores da cidade. Ninguém que o conheceu antes de 1919 cita o antissemitismo como traço fundamental de sua personalidade. Daí em diante, porém, ele está sempre presente. Quando Hitler escreve “Mein kampf” (“Minha luta”), em meados dos anos 1920, esse antissemitismo já é o centro de uma visão de mundo que toma os judeus como a base de todos os problemas de Alemanha, e que não muda até sua morte, em 1945.


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: